ISSN: 2317-2002
"Este é um momento histórico, senhoras e senhores". É complexo não pensar nesta frase perante o acontecimento da pandemia de Covid-19. O evento, afinal, descontinuou o mundo e marcou a virada do século 20 para o 21, como propôs a historiadora Lilia Schwarcz, em recente entrevista.[1] A pandemia global, em um mundo mais interligado do que nunca, nos proporciona um momento histórico. É, seguramente, um momento ruim, mas mesmo assim é “nosso”. Sabemos que nossas experiências cotidianas, artefatos e memórias se transformarão em fontes primárias para futuras gerações compreenderem o que foi esse momento.
A pergunta que nos habituamos fazer sobre o papel da história na esfera pública é muito conexo à conjuntura atual. Vimos como ressurgiu o interesse nas épocas passadas, em que eventos análogos aconteceram, como a denominada “gripe espanhola” de 1918. Notas na mídia, reedição ou publicação de livros sobre o tema, entrevistas com estudiosos do assunto. Apesar disso, precisamos lidar com o fato de que o papel da história como “mestra da vida” perdeu força em uma sociedade na qual se privilegia aquilo que é imediato, sensacionalista e banal.
É manifesto que a influência pública dos historiadores diminuiu sua importância ante os representantes de outros ofícios, como jornalistas, economistas ou os próprios políticos (isso para não falar dos “famosos” do mundo do espetáculo e do show business). Contudo, achamos que a história como ofício deve exercer um papel importante nos debates públicos e na preparação de políticas.
Realizar um trabalho histórico adequado demanda tempo devido à pesquisa e preparação dos resultados na forma de livros ou artigos, que são a principal maneira de materialização do nosso trabalho. E isso vai de encontro com a velocidade em que as notícias e os efeitos (muitas vezes incapacitantes ou distorcidos das mídias sociais -ou antissociais) se movem atualmente, o que atrapalha a análise detalhada dos acontecimentos. Diante da onda de superficialidade, temos a impressão de que historiadoras e historiadores procuraram incidir mais nessas redes. Exatamente o contexto da atual pandemia pode colaborar para a transição entre os meios acadêmicos tradicionais e a divulgação do que fazemos por outras vias. Um efeito positivo pode ser um compromisso renovado para conectar nossos temas de pesquisa com a atualidade.
Dentre as questões que gostaríamos de ver mais pensadas em debates acadêmicos, estão a desigualdade e as vias para sua redução, como o “rendimento básico”, bem como as disparidades entre países ricos e países pobres. Essa conjuntura, certamente, nos faz relembrar que o imperialismo existe. Como historiadores não podemos deixar de observar que governos (o nosso especialmente) se aproveitaram da pandemia para reforçar ainda mais o prejuízo econômico e social às Ciências Humanas, aos profissionais da Educação, e ao vilipêndio dos Direitos Humanos, por isso acreditamos que dos efeitos dessa política somados à crise da COVID-19 nos obriga a atuar com mais proeminência, afinal, apesar do mundo virtual exacerbado pelo vírus, a vivência pessoal permanece relevante para nossa profissão como historiadores.
E é nessa condição que nós da Gnarus, apesar de toda a maré contrária, dizemos: ainda estamos aqui, falando de tudo e todos, e principalmente, para todos.
Boa leitura e vamos para 2022.
Fernando Gralha
[1] Veja mais em https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020 /05/12/covid-19-como-historiadores-vao-contar-o-que-foi-a-pandemia.htm?
ANO IX - Nº 12 - dezembro/2021
Apresentação (Fernando Gralha)
ARTIGOS:
EXTINÇÃO DA VIDA FÍSICA OU DESDOURO SOCIAL? As Penas de Morte Natural e Morte Civil nos Livros V das Ordenações Manuelinas e Filipinas. (Bárbara Alves Benevides)
A “CÓPULA DA NAÇÃO”: Jorge Amado como um demarcador cultural para o cinema brasileiro (1970-1977) (Romário de Moura Rocha)
A HISTÓRIA EM TOM MENOR (Felipe Sanches Santos Barbosa)
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A LUTA ARMADA DURANTE A DITADURA CIVIL-MILITAR NO BRASIL (Felipe Castanho Ribeiro)
COELHO RODRIGUES E O CÓDIGO CIVIL: A normatização da sociedade brasileira na transição da monarquia à república (Ítalo Bruno Araújo Damasceno)
ENTRE A RELIGIÃO E O PROGRESSO: AS REPRESENTAÇÕES DO FUTURO NA IMPRENSA DE JUIZ DE FORA E SÃO JOÃO DEL-REI NA VIRADA DO SÉCULO XIX PARA O XX (1895-1905) (Flávio Raimundo Giarola, Izabela Aparecida Gontijo, Bernardo Victor Silva de Andrade)
HISTÓRIA ECONÔMICA E DESENVOLVOMENTO BRASILEIRO POR FERNANDO HENRIQUE CARDOSO (Leonardo Mello Silva)
FOUNDATION HAZELDEN BETTY FORD: Tratamento de adictos no âmbito do cristianismo evangélico numa perspectiva da análise crítica do discurso (João Paulo Carneiro)
“COLLECÇÃO DE INSTRUÇÕES SOBRE A AGRICULTURA, ARTES E INDUSTRIA”: o “saber fazer” em Alexandre Antônio Vandelli (Adílio Jorge Marques)
E AGORA, HISTÓRIA? ONDE ESTÁ A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO DEPOIS DO GIRO LINGUÍSTICO? (José Wilton Santos Fraga)
A ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA DO REINO PORTUGUÊS AO TEMPO DE D. DINIS (1279-1325) (Láisson Menezes Luiz)
O ENSINO DE NOVOS TEMAS COM NOVAS TECNOLOGIAS E O DESAFIO DO ENSINO DE HISTÓRIA EM TEMPOS DE PANDEMIA (Eduardo de Almeida Vieira)
PEDAGOGINGA: A capoeira como ferramenta educacional no Ensino de História (Hugo Sbano Freire)
A COMPANHIA DE JESUS E SUA RELAÇÃO COM A COROA PORTUGUESA: Leituras historiográficas (Felipe Augusto Fernandes Borges)
CONFLITOS ENTRE MORADORES E JESUÍTAS PELA POSSE DE TERRAS NA CAPITANIA DO RIO GRANDE DO NORTE NO SÉCULO XVIII (Ana Lunara da Silva Morais)
COLUNA: NO ESCURO DO CINEMA
BESOURO, DO REGISTO POLICIAL À EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA. Qual a importância do filme para educação básica? (Djalma Barros e Silva Vasconcelos e Maria Emilia Vasconcelos dos Santos)
THE WALKING DEAD: a morte do progresso em alerta (Rafael Garcia Madalen Eiras)
COLUNA: FOTOGRAFIAS DA HISTÓRIA
YEVGENY KHALDEI e A BANDEIRA VERMELHA SOBRE O REICHSTAG (Berlim/1945) (Fernando Gralha)
COLUNA: EDUCAÇÃO
PROPOSTAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO PROCESSO DE INTEGRAÇÃO DISCIPLINAR NO CONTEXTO EDUCACIONAL. Por uma educação justa e transformadora (Adílio Jorge Marques e Miriam de Souza Oliveira Machado)
FILOSOFIA: “O amor à sabedoria” a partir do ensino fundamental II
(6º AO 9º ANO) (Flávio Henrique Santos de Souza)
INTERDISCIPLINAR
ABORDAGEM MONTESSORIANA NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO. (Elizabete Otero Mendes)
RESENHA
UM CONVITE À LEITURA DE “Da Pedra do Sal Até Coelho da Rocha - Ilé Ase Ópó Àfónjá Rio de Janeiro”. (Álvaro de Almeida Rios Ramos)